Compartilhamento de Postes – O emaranhado de fios que domina nossas cidades não é apenas poluição visual.
É evidência física de um modelo regulatório que perdeu coerência sistêmica.
A discussão pública costuma reduzir o problema à estética urbana.
Mas o fenômeno é mais profundo: trata-se de governança fragmentada sobre um ativo crítico compartilhado.
1. A raiz do problema não é técnica
Compartilhamento de Postes (Modicidade Tarifária)
O poste pertence à distribuidora de energia elétrica.
A ocupação é majoritariamente de empresas de telecomunicações.
O resultado é previsível em qualquer análise institucional séria:
Infraestrutura monopolista
Uso concorrencial
Responsabilidade difusa
Fiscalização fragmentada
Esse arranjo produz um “vácuo de comando”. Conflito de Competência Regulatória
E vácuos de comando não geram ordem — geram sobreposição, conflito e ineficiência.



2. O caos não é acidental. É consequência de incentivos mal desenhados.
Quando não há comando unificado, surgem distorções operacionais:
Capacidade artificialmente esgotada
Cabos mortos, abandonados ou clandestinos ocupam espaço físico que deveria estar disponível para operadores regulares.
Risco sistêmico
Interferências técnicas, curtos, quedas de cabos, dificuldade de manutenção e risco ampliado em situações de emergência.
Custo invisível
O tempo adicional de manutenção, a judicialização de disputas e a ineficiência operacional não desaparecem.
Eles são internalizados na cadeia de custos — e repassados ao consumidor.
Externalização da responsabilidade
Quando todos ocupam, mas ninguém comanda, o incentivo é ocupar rápido e regularizar depois.
Isso não é falha moral.
É falha de desenho institucional.
3. O mito da “falta de norma”
Normas existem. Resoluções conjuntas existem. Multas existem.
O que não existe é coerência estrutural de governança.
Enquanto processos administrativos tramitam em Brasília,
o risco permanece na rua.
Enquanto competências são discutidas,
o ativo se degrada.
Infraestrutura crítica não pode operar sob regime de ambiguidade decisória.
4. O que está realmente em jogo
O poste não é apenas suporte de cabo.
Ele é:
- Infraestrutura elétrica
- Infraestrutura de telecom
- Infraestrutura de dados
- Infraestrutura de serviços públicos
- Infraestrutura de segurança urbana
Ou seja: é um nó físico de interdependência sistêmica.
Quando esse nó não tem comando claro, todo o sistema sofre.
5. Precisamos de coerência regulatória
Minha tese é objetiva:
Não existe solução técnica sem coerência sistêmica.
Alguns caminhos possíveis:
1️⃣ Agência unificada de infraestrutura compartilhada
Integração institucional entre energia e telecom sob comando único.
2️⃣ Entidade gestora neutra de infraestrutura passiva
Modelo “neutral host”, responsável por cadastro, auditoria e controle técnico da ocupação.
3️⃣ Fiscalização integrada obrigatória
Base de dados única nacional de ocupação de postes, com rastreabilidade digital e responsabilização solidária por abandono.
Sem comando integrado, qualquer solução será paliativa.
6. O debate precisa amadurecer
Reduzir o problema à “poluição visual” é superficial.
Estamos discutindo:
- Governança de ativos críticos
- Eficiência regulatória
- Segurança urbana
- Custo sistêmico
- Responsabilidade institucional
Poste não é paisagem.
Poste é infraestrutura crítica.
E infraestrutura crítica não sobrevive sem comando claro.
Provocação final
O modelo atual é sustentável a longo prazo?
Devemos caminhar para:
A) Uma agência única de infraestrutura
B) Uma gestora neutra de postes
C) Um novo modelo ainda não debatido publicamente
O que falta é vontade política, engenharia institucional ou pressão técnica do setor?
Vamos elevar o nível do debate!
- Por que toda a rede de telecom na rua não fica ao cargo da concessionária de energia que receberia por isso?
- Por que os brasileiros não se indignam com este problema de poluição visual e qualidade de serviços?
- Por que precisamos ter agencias governamentais inócuas?