Avaliação de Campo Eletromagnético em Subestação de Energia Elétrica

Mitigação de Exposição Acima de Limites Legais segundo a Lei nº 11.934/2009 e a Resolução ANEEL nº 616/2014


Resumo

Este artigo técnico apresenta um estudo aplicado de avaliação de campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos em uma subestação de energia elétrica, conduzido segundo os requisitos da Lei nº 11.934/2009 e da Resolução ANEEL nº 616/2014.

As medições realizadas em condições reais de operação foram comparadas com os limites legais brasileiros e com referências técnicas internacionais, como as diretrizes da ICNIRP e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em pontos específicos da instalação, foram identificados valores acima dos níveis de referência aplicáveis, o que motivou a proposição e implementação de medidas de mitigação de engenharia e administrativas. Após as intervenções, novas medições comprovaram a redução dos níveis de exposição e a restauração da conformidade técnica e legal, reforçando a importância da medição como ferramenta de confiabilidade e governança elétrica.


1. Introdução

A exposição humana a campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos associados a sistemas de energia elétrica é objeto de regulamentação específica no Brasil desde a publicação da Lei nº 11.934/2009, que estabelece limites de exposição com base em diretrizes científicas internacionais.

No setor elétrico, essa lei é regulamentada por normas e procedimentos da ANEEL, com destaque para a Resolução Normativa nº 616/2014, que define critérios para avaliação, controle e comunicação da exposição em instalações de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica.

No entanto, na prática, muitas subestações operam por longos períodos sem medições sistemáticas, o que dificulta a comprovação objetiva de conformidade legal e pode gerar risco ocupacional, passivo trabalhista e vulnerabilidade regulatória.

Este artigo apresenta um exemplo técnico aplicado de como a medição, a comparação normativa e a mitigação estruturada podem ser utilizadas para resolver com sucesso uma situação de não conformidade.


2. Metodologia de Medição

A avaliação foi conduzida em uma subestação de energia elétrica em operação contínua, seguindo boas práticas de engenharia e normas técnicas reconhecidas, incluindo:

  • IEEE Std 644 – Standard Procedures for Measurement of Power Frequency Electric and Magnetic Fields
  • IEC 61786 / IEC 61786-1 – Measurement of low-frequency magnetic and electric fields
  • Diretrizes da ICNIRP para campos de 50/60 Hz
  • Orientações da ANEEL para comparação com limites legais

2.1 Instrumentação

Foram utilizados instrumentos calibrados e rastreáveis, incluindo:

  • Medidores de campo magnético tri-axiais para 50/60 Hz
  • Medidores de campo elétrico de baixa frequência
  • Registro das condições operacionais (corrente, carga, topologia da subestação)

2.2 Procedimento de Medição

As medições foram realizadas:

  • Em malha de pontos previamente definida,
  • A alturas representativas da exposição humana ocupacional,
  • Em áreas de circulação, permanência e operação,
  • Durante condições normais de carga da subestação.

Os valores obtidos foram tratados estatisticamente (média, valor máximo e RMS), conforme recomendado pelas normas técnicas.


3. Resultados Obtidos

Os resultados foram organizados em tabelas e gráficos comparativos, confrontando:

  • Valores medidos de campo elétrico (kV/m) e campo magnético (µT),
  • Limites legais e níveis de referência definidos pela legislação brasileira,
  • Diretrizes internacionais da ICNIRP para exposição ocupacional e ao público.

3.1 Exemplo de Resultado Crítico

Em um ponto localizado nas proximidades do transformador principal e de rotas de circulação operacional, foram registrados valores de campo magnético superiores aos níveis de referência para público geral, aproximando-se dos limites ocupacionais, conforme critérios normativos.

Embora a situação não configurasse risco imediato, caracterizava não conformidade potencial do ponto de vista legal e de governança técnica.

Medição de campo eletromagnético

4. Avaliação Técnica e Diagnóstico

A análise das causas indicou que os níveis elevados estavam associados a uma combinação de fatores, entre eles:

  • Correntes elevadas em determinados circuitos sob carga,
  • Proximidade excessiva entre condutores energizados e áreas de circulação,
  • Layout da subestação sem barreiras físicas adequadas,
  • Assimetrias na malha de aterramento, favorecendo correntes de retorno e campos residuais.

Esse diagnóstico reforça que campos eletromagnéticos elevados são sintomas de condições elétricas específicas, e não fenômenos aleatórios.


5. Soluções de Engenharia Aplicadas

Com base no diagnóstico, foi definido um plano de mitigação integrado, combinando medidas técnicas e administrativas.

5.1 Medidas Técnicas

  • Redistribuição de circuitos e reorganização de rotas de cabos, reduzindo a densidade de campo;
  • Otimização da malha de aterramento, minimizando correntes de circulação indesejadas;
  • Aumento da distância física entre fontes energizadas e áreas de permanência;
  • Instalação de barreiras físicas e blindagens localizadas em pontos críticos;
  • Ajustes no layout operacional da subestação.

5.2 Medidas Administrativas

  • Restrição de tempo de permanência em áreas críticas durante a fase de adequação;
  • Sinalização técnica e controle de acesso;
  • Atualização de procedimentos operacionais e de segurança;
  • Planejamento de novo ciclo de medições para verificação de eficácia.

6. Verificação Pós-Mitigações

Após a implementação das medidas, foi realizada uma nova campanha de medições, seguindo a mesma metodologia inicial.

Os resultados demonstraram:

  • Redução significativa dos níveis de campo elétrico e magnético nos pontos críticos;
  • Valores abaixo dos limites legais e níveis de referência aplicáveis;
  • Restabelecimento da conformidade com a Lei nº 11.934/2009 e a Resolução ANEEL nº 616/2014.

Esses resultados confirmaram a eficácia das soluções adotadas e a importância da abordagem baseada em engenharia.


7. Conclusões Técnicas

  • A medição e comparação com limites legais é uma etapa essencial da confiabilidade das instalações elétricas;
  • A ausência de medições sistemáticas representa risco técnico, legal e decisório;
  • Situações de excedência podem ser diagnosticadas e corrigidas por meio de soluções de engenharia bem fundamentadas;
  • A integração entre medição, análise, mitigação e verificação é a única forma de garantir conformidade sustentável.

Considerações Finais

Embora existam poucos casos documentados publicamente no Brasil com detalhamento técnico completo, a aplicação rigorosa da legislação nacional, das normas técnicas internacionais e das boas práticas de engenharia permite resolver com sucesso situações reais de não conformidade em subestações de energia elétrica.

A experiência apresentada neste artigo reforça que confiabilidade elétrica não é apenas continuidade operacional, mas também controle comprovável dos riscos eletromagnéticos, com benefícios diretos para a segurança das pessoas, a proteção institucional e a governança do negócio.

avaliação de campo eletromagnético em subestação

medição de campo elétrico e magnético

Lei 11.934/2009 campo eletromagnético

ANEEL 616/2014 subestações

mitigação de campos eletromagnéticos

confiabilidade das instalações elétricas